A acusação de que os jovens brasileiros têm
preguiça de ler é
injusta e infundada. O fenômeno Harry Potter testemunha a favor. O
Brasil assistiu boquiaberto a miúdas crianças devorarem avidamente
infinitas páginas de um pesado volume cujas mãozinhas mal conseguiam
sustentar. Da mesma forma, é mentira que criança não gosta de tomar
remédio. Ao contrário, é preciso vigiar o frasco de xarope, pois o
líquido colorido, cheiroso e docinho lhes aguça a atenção. O segredo do
best seller infantil foi justamente este: transformar um amaríssimo remédio em deliciosa guloseima.
Na
verdade, os pequenos não-leitores são vítimas de ignorantes imposições
que fazem dessa atividade não uma prazerosa fonte de crescimento e
informação, mas um enfadonho e torturante castigo. Um mau exemplo disso é
a teimosia de desastrados professores, que insistem em empurrar Machado
de Assis goela abaixo de uma criança de 4ª série. O resultado é que ela
toma ódio desse e de outros gênios – aliás, de qualquer literatura.
E
deve-se, no caso, dar razão ao educando, pois Machado é
insuportavelmente inadequado para a idade. Seu vocabulário e suas
construções frasais são vetérrimos, herméticos e sua filosofia
inalcançável para tão incipiente formação. Os incautos mestres querem
que a criança tome a bicicleta pela primeira vez e já saia pedalando com
destreza. É preciso que se coloquem aquelas rodinhas laterais até que o
novo ciclista aprenda a se equilibrar. Assim, um dos melhores livros de
toda a literatura brasileira é o
Escaravelho do Diabo, se lido aos 10 anos de idade.
Linguagem rasteira e ilustrações ajustadas
Em
descompasso com o aluno, a escola teima no ensino cronológico das
correntes literárias e respectivas obras. Mais proveitoso seria começar
pela literatura contemporânea, até que um dia ele se interessasse por
texto cheirando a mofo – cantigas de amigo e maldizer.
Mas há
coisa pior: despreparados professores usam a leitura como instrumento de
coação. Alguns, para recobrarem a disciplina e a ordem da sala, ameaçam
seus alunos com atividades de leitura. O resultado é previsível.
Em
suma, a criança e o adolescente não lêem porque a escrita é intragável.
A começar pelo vocabulário, embaraçoso, incompatível com sua
deficitária formação escolar.
Os dicionários são labirintos de
linguagem floreada-pós-PhD, tão exatas e esclarecedoras quanto os poemas
de Cruz e Souza. O aluno de 5ª série que se aventura a buscar um
conceito no pai-dos-burros sai dali convicto de que o livro é mais burro
do que pai. O verbete procurado é definido por um emaranhado de
palavras mais difíceis do que aquela que ele procurava. A experiência
assemelha-se à saga de um analfabeto que vive o burocrático jogo de
empurra numa dessas destroçadas repartições públicas. Dessa consulta,
ele só sai doutor em pingue-pongue. As editoras ainda não entenderam o
que é dicionário verdadeiramente escolar: linguagem rasteira e
ilustrações ajustadas ao prin-ci-pi-an-te.
"De boa, véi"
Os
pais dão sua contribuição: são o melhor exemplo do que não se deve
fazer. Prostram-se mudamente diante da TV e dali só saem para dormir.
Desconhecem que um dos melhores métodos de ensino e aprendizagem
chama-se imitação. As crianças copiam o que vêem, ou melhor, o que não
vêem. Se não flagram seus pais degustando um bom livro, não repetirão a
experiência.
Mas a medalha de ouro cabe à imprensa. Autora dos
mais ferozes ataques, ela insiste em tachar o estudante de alienado e de
restringir-se a conteúdos acríticos, como horóscopo e futebol. Essa
limitação é verdadeira e explicável: não existem publicações
infanto-juvenis palatáveis sobre economia e política. Em que pesem as
críticas da mídia, não se sabe de jornal que dialogue com a turma.
Os
jornalistas, não obstante celebérrimos profissionais, desconhecem a
regra mais elementar da comunicação: o texto deve se ajustar à língua de
quem o recebe, pelo menos por algum tempo. Os fatos
político-econômicos, principalmente, são apresentados tão-somente na
perspectiva adulta. Esse desajuste não permite às vítimas do caos do
ensino reconhecerem qualquer identidade com seu grupo social. Parece que
tais acontecimentos afetarão exclusivamente o mundo adulto. A imprensa
não se preocupa em traduzir o periódico para a língua escolar. Assim,
para o adolescente, não há aplicação prática das informações em seu
cotidiano. O estudante sequer entende o que está sendo noticiado. "De
boa, véi, num rola não. Tipo assim... nem sei, fraga?"
Um jornal escolaaaar!
Habituados
a elogios de colegas e de respeitadíssimos intelectuais, os jornalistas
ou mesmo escritores não têm consciência de que suas obras de arte são
modorrentas leréias. O leitor é excluído porque não dispõe de
instrumento para decifrar tão enigmática composição. É como se ela
estivesse redigida em japonês arcaico de trás para frente.
O
jornalismo sério não aceita se rebaixar ao nível do incipiente leitor,
tampouco demonstra paciência com seu desenvolvimento. A imprensa
precisa, no entanto, descer do pedestal e ir ao encontro daquele que
pretende como leitor. É preciso conquistá-lo, seduzi-lo, "mascá um 171".
É necessário formar seu gosto.
Mundo adulto, é preciso um jornal
escolaaaar! Sei da tentativa bem intencionada de um jornal de grande
circulação, no entanto o colorido e a meia dúzia de gírias não foram
suficientes para agarrar os
teens. É preciso recorrer a
profissionais de outras áreas: pedagogos, psicólogos, educadores, bem
como a jovens talentos jornalísticos inatos. Só assim será possível a
resposta:
– Aí! De-mo-rô, meu.